Projeto da UEM utiliza IA para auxiliar no diagnóstico de doenças infecciosas

Ferramenta desenvolvida por estudante de Ciência da Computação busca agilizar a identificação de parasitas por meio da análise de imagens

Criado pelo estudante do 3° ano de Ciência da Computação da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Nuno Abílio, o Tecnoblade é uma ferramenta que utiliza inteligência artificial (IA) para auxiliar na detecção de microrganismos causadores da malária e da doença de Chagas. Premiada no Hackathon pela saúde em 2025, desafio promovido pela Becton Dickinson (BD), empresa global de tecnologia médica, em parceria com a Enactus Brasil, a ferramenta ainda está em fase de implementação e busca reduzir o tempo necessário para a realização dos diagnósticos e ampliar a eficiência das análises. Durante a competição, o estudante trabalhou em parceria com João Vitor Lima, estudante da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), campus de Nova Andradina, que contribuiu na etapa inicial do hackathon e segue desenvolvendo o projeto com Abílio. Orientada pelo professor Yandre Costa, a iniciativa nasceu com o objetivo de proporcionar resultados mais rápidos, especialmente em localidades com escassez de recursos laboratoriais, como parte da região amazônica. Nessas áreas, o Tecnoblade pode reduzir a quantidade de insumos necessários para as análises, detalha o orientador. O Instituto Evandro Chagas (IEC), vinculado ao Governo Federal, é uma das referências nas pesquisas da área. Atualmente, o diagnóstico é realizado por meio da coleta de uma gota de sangue, analisada no microscópio para identificar a presença dos patógenos.

O processo ainda é realizado de forma manual pelos pesquisadores. Os profissionais precisam coletar uma gota de sangue, colocá-la em uma lâmina e analisá-la com o auxílio de um microscópio. “São mais de três mil amostras que precisam ser avaliadas manualmente, na busca por alguma alteração”, explica o estudante.

Para reduzir esse tempo, a equipe desenvolveu uma solução baseada na You Only Look Once (YOLO), um modelo que auxilia em tarefas de reconhecimento de imagens. O sistema é treinado com fotos de lâminas de sangue previamente marcadas, permitindo que a inteligência artificial aprenda a identificar padrões."Quanto mais imagens você consegue colocar, melhor fica o treinamento", explica o estudante. Após esse processo, a IA analisa novos registros e indica a possível presença de parasitas. Embora o treinamento inicial possa levar horas, a aplicação prática tende a ser mais rápida.

O diagnóstico precoce é fundamental porque, na doença de Chagas, a identificação nos primeiros 60 dias aumenta as chances de cura. Após esse período, a enfermidade pode evoluir para a fase crônica, de tratamento mais complexo. Segundo Abílio, “o impacto mais significativo da pesquisa em si é poder diminuir o tempo que os próprios pesquisadores precisam gastar para fazer o teste.” Já o professor reforça que, em qualquer cenário de diagnóstico, “tempo é vida”. Então, cada fração de segundo que possa antecipar o diagnóstico, no final, pode trazer muitos benefícios.

O projeto enfrenta desafios relacionados ao treinamento da IA e à validação dos resultados, etapas necessárias para garantir seu funcionamento adequado. Após concluídas, a proposta poderá se aproximar de uma solução para aplicação prática, com resultados previstos dentro de um ou dois anos. Segundo Costa, a mesma metodologia poderá ser adaptada para a detecção de outras doenças.

A conquista no Hackathon representou um importante reconhecimento do trabalho desenvolvido pela equipe. Os recursos obtidos com a premiação foram utilizados para auxiliar os integrantes da equipe a participarem da competição anual da Enactus, realizada no Pará. Nuno Abílio afirma que a vitória ampliou a visibilidade da pesquisa entre a comunidade acadêmica, a mídia local e a própria universidade “fizemos uma matéria de divulgação e, poucos dias depois, estavam todos os jornais de Maringá falando: ‘Que legal, bacana, vamos fazer uma reportagem’”, relata.

Neste ano, a pesquisa ganhou repercussão internacional quando um comentário sobre o Tecnoblade viralizou no aplicativo X, o antigo Twitter. O aluno conta que ficou surpreso ao ver o trabalho alcançando milhões de visualizações. A repercussão também aproximou o estudante da pesquisadora Jéssica dos Santos, do Instituto Evandro Chagas (IEC), que propôs uma colaboração entre as universidades. De acordo com o estudante da UEM, a parceria tem contribuído para o desenvolvimento do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) por meio do acesso aos registros visuais do Instituto.“Espero poder cada vez mais ajudá-la e ajudar a equipe a fazer esse processo para realmente automatizar o trabalho deles.”

Para Yandre Costa, iniciativas como o Tecnoblade demonstram o potencial da UEM na produção de conhecimento científico com impacto social. Repórter: Stephanie dos Santos Anunciação