“Os nossos não estiveram aqui e, agora, falar de ancestralidade dentro da universidade é construir um futuro que sempre foi negado a nós e que, muitas vezes, era o sonho dos nossos ancestrais”. A frase de Eduarda Beltramin, historiadora, pesquisadora e participante do Sankofa: Grupo de Estudos em Relações Étnico-Raciais, ajuda a explicar a proposta da iniciativa: ampliar a presença da literatura negra no ambiente acadêmico e construir um espaço de pertencimento dentro da Universidade Estadual de Maringá (UEM).
A iniciativa, que integra o Núcleo de Estudos Interdisciplinares Afro-Brasileiros (NEIAB) contribui para o estudo de teóricos e obras negras no ambiente acadêmico. Eduarda Beltramin explica como a proposta do Sankofa dialoga com a permanência e o sentimento de pertencimento dentro da universidade. “É um espaço de sensibilidade, um lugar de cuidado, onde a gente percebe que aqui a gente pode chorar com algum conteúdo sensível do livro e aí compartilhar esse sentimento. Tem esse lugar sensível dentro da universidade onde a gente consegue compartilhar trajetórias que são comuns a nós.”
O Sankofa nasceu da ausência de leituras negras na UEM e atua no intuito de mudar tal cenário nesse espaço destinado a formar cidadãos. O grupo surgiu em 2024 durante a 18ª Semana Afro propondo ampliar o debate de questões étnicoraciais para além do próprio NEIAB. A historiadora explica que o nome Sankofa remete a um adinkra africano que simboliza um pássaro que concebe o futuro ao olhar para o passado, remontando sua trajetória. Ao ser questionada sobre o que significa falar de ancestralidade na academia, ela diz que é sonhar com um futuro que a eles foi negado. “Era o sonho deles estarem aqui, era o sonho de produzir. Enfim, era o sonho representar esses espaços. É remontar lugares onde os nossos corpos não estavam.”
Eduarda argumenta que a lacuna que se forma ao excluir autores negros das referências em sala de aula é um fator responsável pela evasão de estudantes negros na universidade, já que a falta de contato com esses teóricos gera um sentimento de não-pertencimento. A falta de representatividade afasta o estudante da ideia de que aquele é um espaço para ele. Eduarda Beltramin cita Gloria Anzaldúa e seu texto Uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo como uma das leituras mais importantes para o grupo, pois retrata o fazer da produção acadêmica negra e, segundo ela, foi um momento de encorajamento para os participantes.
