Para além das salas: UEM une ciência e comunidade em evento no Parque do Ingá

Noite dos morcegos aproxima a população maringaense da ciência e destaca importância dos mamíferos para o equilíbrio ambiental

A Universidade Estadual de Maringá (UEM), como uma universidade pública, gratuita, de qualidade e embasada nos três pilares: ensino, pesquisa e extensão, deve oferecer serviços à comunidade e mostrar seus resultados como contribuições para a sociedade. O Grupo de Estudo de Ecologia de Mamíferos e Educação Ambiental (GEEMEA) vinculado ao Departamento de Biologia se dedica para que isso continue acontecendo. A equipe reúne alunos de Biologia e Zootecnia, pesquisadores, professores e até a comunidade externa. Eles se dedicam a realizar pesquisas, gerar dados científicos e transformá-los em conhecimento para a comunidade. É construído dentro da universidade, para fora dela.

Mas como a comunidade externa participa de um grupo de estudos da universidade? Isso ocorre na Noite dos Morcegos, uma iniciativa do GEEMEA em parceria com a UEM e com o Instituto Ambiental de Maringá (IAM), voltada para o público em geral, que leva a comunidade a uma situação diferente e curiosa. A ação ocorre anualmente, no Parque do Ingá, em novembro, e consiste em uma trilha noturna para apresentar as espécies que vivem no parque e compartilhar informações sobre a importância dos morcegos, que desempenham um papel crucial no equilíbrio da vida urbana e dos ecossistemas naturais. “Uma vez que eles estão envolvidos em diversos processos ecológicos que são essenciais, como, por exemplo, a predação de insetos”, explica Henrique Ortêncio, professor e coordenador do GEEMEA. O pesquisador pontua como o evento é uma experiência transformadora para todos que participam. A vivência proporcionada permite que os alunos desenvolvam habilidades em pesquisas que podem ser muito bem-vindas no futuro profissional.

A “Noite dos Morcegos”, que terá sua 11º edição em 2026, costuma reunir cerca de 500 pessoas que se dividem em grupos para percorrer a trilha e se aproximar desses animais, que, muitas vezes, são percebidos quase como um sinônimo de ameaça. Ainda há muita dificuldade na preservação dos morcegos em Maringá, e parte disso se dá pela falta de entendimento da população acerca do animal. Muitos o reduzem a animais “chupa-sangue” ou “venenoso”, mas apenas três tipos de morcegos causam danos desse tipo, das mais de mil espécies existentes, sendo encontradas 15 delas em Maringá. Durante a atividade noturna, os participantes aprendem outras perspectivas acerca desses mamíferos, desmistificando estigmas que levam à perseguição das espécies. Ortêncio ressalta que o papel dos morcegos é fundamental, inclusive para os seres humanos, já que eles atuam na manutenção ambiental, atuam como polinizadores, dispersam sementes e ajudam a controlar populações de outros animais que podem ser vetores de doenças.

Henrique Ortêncio aponta que em estudos recentes realizados no GEEMEA foram encontradas partículas de microplásticos nas fezes dos morcegos. “Isso tem se revelado como um problema muito sério, já que o microplástico está na água que nós consumimos”. Laura Camargo, estudante do 4º ano de Ciências Biológicas na UEM e participante do grupo de estudos desde 2024, pesquisa a respeito dos microplásticos nos morcegos com foco na contaminação dos animais no Parque do Ingá. A pesquisa da discente é realizada a partir da coleta de fezes, análises no laboratório e observação da degradação da área preservada que impacta os animais no parque. Os pesquisadores reforçam que essas partículas podem causar desequilíbrios hormonais nos mamíferos e afetar o sistema ambiental.

O que mais chama atenção, entretanto, é a falta de cuidado que a população tem com o meio ambiente, o que não se restringe ao Parque do Ingá. Pessoas consomem e descartam embalagens plásticas em qualquer lugar, sem se preocupar. Atualmente, estes resíduos estão em todos os lugares que podemos imaginar – até dentro dos morcegos. A “Noite dos Morcegos” também oferece essa conscientização, destaca José Roberto Behrend, diretor do Instituto Ambiental de Maringá (IAM) e geógrafo. “Todas as pessoas que têm experiência de passar uma noite dentro do parque saem com um pouquinho mais de conhecimento, tanto dos morcegos quanto sobre a conservação dos ambientes que nós temos que proteger”.

Neste ano, o evento será realizado no mês de novembro. O tema ainda não foi revelado; estima-se um público expressivo, como nas edições anteriores. Além disso, o geógrafo traz uma notícia que pode animar os interessados: existe a possibilidade de que mais edições sejam realizadas no decorrer do ano, em virtude da grande procura.

Repórteres: Marcela Passeri de Morais e Stephanie dos Santos Anunciação.