MULTICOM discute a temporalidade no mundo contemporâneo

Evento, em sua décima quarta edição, contemplou o tema central por meio de palestras, oficinas, exibição de filmes e apresentações de trabalhos

O curso de Comunicação e Multimeios (CMM) da Universidade Estadual de Maringá (UEM) promoveu nos dias 16, 17, 18 e 19 de junho a 14ª edição de seu evento anual, MULTICOM, com o tema “Entrelinhas: Temporalidade, traço e movimento”. A palestra de abertura ministrada por Rozinaldo Miani, professor da Universidade Estadual de Londrina, e de encerramento proferida por Greice Schneider, docente da Universidade Federal de Sergipe (UFS), abordaram a manualidade nas ilustrações, o humor gráfico e os quadrinhos. Os estudantes também puderam participar das tradicionais oficinas e contemplar as pesquisas que estão sendo realizadas no campo da Comunicação. Além disso, durante a semana foi realizado o I Concurso de Releituras de Capas de Discos de Vinil, promovido pelo projeto de extensão Arte na Capa, que premiou três artistas.

Em conversa com um dos organizadores do evento, Diego do Amaral, docente do curso de CMM da UEM, explica que a escolha do tema veio do interesse de retomar a gestualidade presente na comunicação. “No momento que a inteligência artificial, por exemplo, é um grande tema a ser debatido, acho que retomar essa dimensão da gestualidade, é retomar também o fundamente o processo criativo, a participação humana”, define.

Nesse contexto, as discussões e iniciativas ao longo dos quatros dias foram divididas em reflexões que abrangem desde a do jornalismo gráfico e impresso até os desafios impostos pelas mídias digitais contemporâneas, nas quais a urgência costuma ditar as regras de produção. Amaral ressalta que o mercado atual, frequentemente transforma a velocidade em um falso sinônimo de qualidade profissional. Diante dessa realidade, o evento buscou promover uma pausa necessária, proporcionando aos estudantes um ambiente voltado ao tempo de contemplação, reflexão e leitura aprofundada, elementos que estão cada vez menos presentes.

O evento recebeu o Rozinaldo Miani, para a palestra de abertura intitulada “O humor gráfico em ação: traços de resistência e arma (simbólica) de combate”, que discutiu as modalidades do humor gráfico, e suas definições a partir de diferentes autores, e seus usos enquanto instrumento político e prática discursiva. O docente do departamento de Comunicação da UEL tem coordenado, ao longo das últimas duas décadas, projetos de pesquisa relacionados ao humor gráfico, tema que também atravessa sua trajetória acadêmica, do mestrado ao pósdoutorado.

Em entrevista à Revista Campus, Miani defendeu a charge como uma estratégia comunicativa capaz de promover um diálogo amplo com os leitores e, portanto, com a sociedade. Para ele, as charges podem, a partir de elementos do lúdico e do humor, e pela via da criticidade, representar aspectos da realidade que não podem ser acessados somente pelo texto verbal. Ao ser questionado sobre como o jornalismo digital impacta a circulação das charges, o pesquisador explica que afeta a própria presença do humor gráfico no universo jornalístico. Segundo o professor, é possível para os portais de comunicação veicular essas ilustrações em suas estruturas, mas ressalta que no jornalismo impresso a charge tem seu lugar privilegiado.

Na cerimônia de encerramento, o MULTICOM contou com a palestra “O tempo suspenso do infraordinário: notas sobre quadrinhos e lentidão” de Greice Schneider. A professora da UFS, com doutorado pelo Katholieke Universiteit Leuven da Bélgica, abordou a urgência de repensarmos a aceleração contemporânea. Ao ser questionada sobre o conceito de infraordinário, a pesquisadora explicou que o termo se refere àquilo que, frequentemente, é considerado desimportante ou corriqueiro. Segundo ela, quando são retirados os grandes eventos e as coisas que normalmente capturam a atenção, o que sobre é, justamente, o infraordinário, a essência do dia a dia, o miúdo que tende a ser ignorado. Participação discente

Os estudantes puderam se inscrever em até duas oficinas das seis ofertadas nesta edição do evento. Na terça-feira, 16 de junho, o primeiro minicurso, “Como Precificar Projetos Autênticos”, ministrado por Alana Vetroni, foi realizado às 17h no bloco I12. A atividade contribuiu para um debate sem tabus sobre a valorização de trabalhos originais. Mais tarde, outras cinco oficinas foram ofertadas simultaneamente. No prédio do Núcleo de Processamentos de Dados, o NPD, a oficina “Diagramação de jornais e revistas: uma introdução ao design gráfico jornalístico’’, com Fernanda Cavassana, docente de CMM, destacou o design gráfico aplicado ao jornalismo. O radialista Marcelo Galdioli ministrou, na Sala Cine UEM, a oficina “A arte de se comunicar bem”, que apresentou os distintos elementos que compõem uma boa oratória. No bloco C67, os congressistas refletiram sobre a pesquisa científica, na oficina “Introdução à Pesquisa em Comunicação: conceitos e práticas”, conduzida pela egressa de CMM, Alice Loureiro. Outro ex-aluno que retornou à UEM por razão do MULTICOM foi Pedro Nascimento, com a oficina “Fazendo cinema por meio de fomentos culturais públicos”.Com mediação do professor Rodrigo Oliva, também de CMM, os estudantes puderam participar do cinedebate “Deslocamentos afetivos e visuais no cinema de Wong Kar-wai”, a partir do filme Happy Together (Wong Karwai, 1997) no Auditório 29 de abril.

Na quinta-feira, 18 de junho, foi realizada a mostra científica nas salas do bloco C67. Nesta edição, 28 trabalhos foram apresentados em cinco eixos temáticos, coordenados por professores de Comunicação e Multimeios:Corpos, Representações e Políticas de Visibilidade, com mediação de Francisco Verri; Poéticas da Imagem e Imaginários Midiáticos, conduzido por Rodrigo Oliva; Criação, Experimentação e Produção de Narrativas, com mediação de Roger Colacios; Mediações Culturais e Sensibilidade, com a participação de Cássio Ceniz e Regimes de Visibilidade, Representações Jornalísticas e Estratégias Publicitárias, mediado por André Bonsanto.

Paralelamente ao MULTICOM, também foi realizada a exposição “Olhares Sobre o Vinil”, organizada pelo projeto de extensão Arte na Capa, na galeria de artes da Biblioteca Central (BCE). O projeto realizou pela primeira vez o Concurso de Releituras de Capas de Discos de Vinil que contou com 12 artistas. Durante a cerimônia de encerramento do 14º MULTICOM, houve a premiação para as três releituras mais votadas pelo público: Fruto Proibido (Rita Lee), releituras de Miquéias Souza e de Gabriel Miotta, e Chico Buarque de Hollanda (Chico Buarque), de João Brunini. — Isabela Scaranello e Mirela Palma

— Isabela Scaranello e Mirela Palma