As eleições de 2026 estão marcadas. As disputas para os cargos de presidente(a) da República, governadores(as), senadores(as) e deputados(as) federais e estaduais serão realizadas no dia 4 de outubro e é previsto, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mais de 158 milhões de brasileiros estão aptos a votar. Com a aproximação do pleito, notícias com os nomes de possíveis candidatos e candidatas reaparecem na mídia, e com elas a possibilidade de manipulação de fatos e disseminação de fake news, ou seja, notícias falsas ou com conteúdos falaciosos. Um dos principais alvos da desinformação é a urna eletrônica e seu sistema de segurança e computação dos votos, sistema esse que passa por diversos testes de confiabilidade, confirmação dos votos e privacidade, como o Teste Público da Urna, que ocorre durante o período que antecede cada eleição e que assegura que o sistema brasileiro de votação é seguro e confiável.
O cenário fica ainda mais perigoso diante de uma ferramenta que se encontra ao alcance de todas as pessoas: a Inteligência Artificial (IA). A redação da Campus conversou com Fernanda Cavassana, professora do curso de Comunicação e Multimeios da Universidade Estadual de Maringá (UEM), doutora em Ciência Política e mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), sobre quais os impactos da desinformação nas eleições, qual a participação da IA nesse cenário e como a Justiça Eleitoral pretende intervir diante do uso abusivo dessas ferramentas. Com a Inteligência Artificial, é possível identificar um crescimento de produções de deepfakes, que são conteúdos midiáticos que sofreram alterações visuais ou sonoras, com o intuito de espalhar desinformação. Esse tipo de mídia é muito comum durante o processo eleitoral, juntamente com as fake news. Preocupado com esse tipo de circulação, o TSE aprovou algumas medidas que regulamentam o uso de IA relacionada à propaganda política, com o intuito de garantir que a tecnologia seja uma aliada durante o pleito. Dentre as novas regras estão a identificação explícita de conteúdos gerados ou modificados por IA, o impedimento de plataformas como ChatGPT e Google Gemini de realizarem ranking ou recomendarem candidatos em seus comandos e a proibição de propagação de materiais gerados por inteligência artificial durante as 72 horas que antecedem o pleito e nas 24 horas após as votações. A professora universitária explica que decisões como essas são implementadas para evitar que os votantes sejam influenciados por conteúdos sintéticos, que estão a cada momento mais presentes nas mídias digitais e impressas, e para que a propaganda política seja realizada de maneira adequada, contribuindo para a democracia.
A pesquisadora também realizou apontamentos importantes aos eleitores sobre a desinformação e o processo comunicacional que envolve a disputa eleitoral diante dos meios de comunicação e das constantes mudanças que ocorrem nas mídias. A checagem de dados e o uso de ferramentas que auxiliam a população a entender o que é verdadeiro e o que é falso são ações essenciais no consumo, interpretação e compartilhamento ao longo do processo informativo. Fernanda Cavassana destaca a importância dos cidadãos, que estão inseridos em uma sociedade democrática, consigam identificar e diferenciar conteúdos gerados por IA para que não tomem decisões que tenham como base produtos manipulados, buscando compreender como essas ferramentas funcionam, quem está por trás desses programas, em quais contextos esses dados foram gerados e em quais meios e momentos eles são expostos para o público. Os meios de comunicação, as instituições governamentais e a própria população são agentes que devem monitorar os conteúdos que aparecem durante o período eleitoral, contribuindo para que o sistema democrático e o exercício da cidadania sejam instrumentos de melhores condições de vida.
Revista Campus: Quais são as suas percepções, como professora universitária de Comunicação Política, sobre as eleições deste ano levando em consideração o crescimento das informações falsas com o uso de IA?
Fernanda Cavassana: A minha percepção é que está ficando cada vez mais difícil lidar com a Inteligência Artificial de modo geral no debate público. E chama a nossa atenção, sempre nos períodos eleitorais, porque uma eleição leva a uma decisão importante na democracia, que é a escolha dos nossos representantes. Então, para as eleições e em toda a democracia, é muito importante o processo de comunicação: as campanhas, a troca de informação. E a partir do momento em que passamos a ter um ecossistema que, dizemos ou classificamos, que está contribuindo com uma desordem informacional, ou seja, que as pessoas têm contato ao mesmo tempo com conteúdos verdadeiros, conteúdos falsos, coisas que foram tiradas do contexto, produtos sintéticos que não são verdadeiros, mas são muito realistas, isso acaba poluindo um pouco o debate público. Nos últimos anos, nas últimas eleições, temos visto um avanço muito forte da IA, ela tem ficado mais forte enquanto sistema, de modo geral, se tornando mais realista, mais próxima do que seria real ou verdadeiro, e se alimentando muito do comportamento das pessoas nessas redes.
